Árvore da vida

Então que assisti o controverso filme “A Árvore da Vida”. Antes de ir, porém, resolvi ler a crítica da minha amiga Valéria Dalegrave, e isso foi o mesmo que comprar uma passagem de primeira classe para embarcar nessa viagem delicada que o diretor Terrence Malick resolveu fazer. Pois então que eu embarquei positivamente impactada pelas palavras da amiga que tem uma sensibilidade que conheço e respeito.

Como a própria Val disse, para falar do filme tenho que – necessariamente – falar de mim. Eu posso não ser um Terrence Malick mas eu também faço as minhas viagens existenciais em busca do infinito e além. Ô se faço.

Eu sou/estou sempre em crise. Em ondas, em ciclos, em eras. Pareço estar estática, mas estou sempre ebulindo, dissolvendo, cristalizando, precipitando – quase que magmaticamente falando. Meu movimento não aparece diante dos olhos de quem esteja me olhando, é interior. Este movimento absurdo me faz crescer, sim, mas é um crescimento infinitamente pequeno, milimétrico, mínimo. Meu movimento tão intenso e tão minúsculo está me fazendo evoluir, sim, e eu posso sentir isso a cada retrocesso que não chego a cometer.

Para mim o filme é uma tentativa de entender as dúvidas da alma. O que é Deus, o que é dor, universo, amor, medo, emoção, alegria, crescer, tato, nascimento, a pedra, a planta, o pé no chão, olhar, cheirar, água fresca, altura, vento no rosto, o grande e o pequeno, a força e a doçura, a natureza e a graça. O infinitamente grande e o infinitamente pequeno. Os opostos sempre juntos, necessariamente juntos. O escuro e o claro. O yang e o yin. O pai e a mãe. O medo e o desejo.

Teve momentos do filme em que eu me vi chorando. Juro. Correram lágrimas, mesmo. Mas não foi um choro de “oh, que cena tocante… oh, que tristeza”. Não sei nem porque eu chorei, mais de uma vez, em cenas das quais nem recordo agora. Simplesmente chorei, minha alma chorou. De alguma forma a obra tocou minha alma, simples assim. Como uma sinfonia ou uma tela abstrata ou renascentista.

Vai ver eu estava – vai ver, não, eu estava, sim – naqueles dias de emoção à flor da pele. Mas foi fato que eu tirei o maior proveito de cada instante (que às vezes parecia eterno), mesmo o filme sendo chato. Hahaha… Porque é isso mesmo, enquanto filme, é um filme chato, a história não é contada como eu gosto de ouvir histórias, creio que é mais longo do que deveria (quem soy jo pra dizer isso?), é meio lisérgico e doidão demais, às vezes exagera na espiritualidade mesmo, tem que ter certa paciência com “a lombra” do Terrence…

Ah, mas eu adorei a viagem do cabra. Sentei na janela e nem me importei quando o trem do Terrence subiu e desceu colina verdejante, costeou o universo todinho desde o big-bang, tergiversou pelo criacionismo, desfilou darwinianamente por todas as etapas da evolução, pulou de estrelinha em estrelinha, brincou de dinossaurinho, pegou onda e mais onda, explodiu, queimou, ardeu, evaporou em borbolhas. Ufa, foi cansativo. Mas quem disse que formar um mundo inteiro é fácil?

(Aproveito e destaco aqui as horrorosas poltronas do cinema do Dragão. Gente, Unibanco, o que é aquilo? Tem que ver issaê, aquelas cadeiras são uma tortura!)

Nessa viagem, sabe por onde eu mais curti pessear? Foi no pequeno, no umbigo, no pertinho – que tá tão longe, meu pai! Foi no pezinho do bebê, por ali, sabe? As dobrinhas? As sensações da formação do mundo-gente. O universo infância. O menino que mora em cada um de nós. O meu menino-menina interior ficou feliz de sentir cada gotinha daquele banho de mangueira, do gatinho no colo, do cachorro latindo para a lata de leite vazia, o galho batendo na casca da árvore, o quebrar um vidro e achar que está assaltando o banco central; ah, todas aquelas texturas, todos  aqueles contextos…

(Outro parêntese: adoro Sean Penn, amo Brad Pitt. Atores maduros, fortes, alfas. E estão supimpérrimos no filme.)

Me impressionou muito a mão forte do pai. Eu quase pude sentir na pele aquele carinho que é um empurrão, o amasso firme que é protetor e repressor e acalentador e necessário. O abraço de urso. A pedra da represa. Me tocou muito também a força da doçura da mãe, uma ventania dentro de um balão de ar. A leveza, a gratidão, a religiosidade dos pequenos gestos.

Eu definitivamente não sei fazer crítica de filme. Desse, então, afemaria. Não dá pra explicar, não é fácil de gostar, o bicho estica a baladeira mesmo… Se você quer assistir, aceite se quiser, dê seu jeito, resolva aí suas paradas. Estou escrevendo aqui só porque senti uma necessidade imensa de falar e só sei falar assim.

Os opostos são poesia. Sinfonia de contrários. Pintura de tons pastéis versus cores contrastantes. Arte.

Aforante tudo isso, o filme a Árvore da Vida é uma questão de fé, eu acho. E recomendo.

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