O mainstream e a ironia

O mainstream diz assim: não há poesia sem dor, não há melodia sem amor, essas coisas. A felicidade, que chato, é careta. Coitada.

Alguém feliz e saltitante não serve para escrever soneto. Tem que haver a tristeza, tem que ter a tristeza, se é que você me entende.

(Mas isso são coisas que eles dizem. Eu prefiro a ideia da alegria gerando momentos de sinergia, instantes de harmonia – infinitos, crescentes, constantes. Eu sou do tipo que só escreve poema se estiver melancólica… mas que segue acreditando sempre nas musas inspiradoras. Essas aí da foto são do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, numa montagenzinha que fiz.)

Pois é, tem esta “escola” que diz que a dor (principalmente a de corno) é a melhor inspiração que existe. Ô. Ainda mais na hora de compor um samba-canção. E que hora sagrada, essa, a hora de compor um samba-canção…

Então a felicidade de amor, quem diria, não consegue conviver com a poesia.

Cá entre nós, isso tudo é uma grande ironia.

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Sessão nostalgia

Lembra daquela cena do Ratattoile em que o critico de gastronomia experimenta o prato típico homônimo ao filme, preparado pelo “minichef”, e tem um insight nostálgico, voltando à infância?
Pois é. Experimentei isso esses dias. Mas foi, no caso, uma experiêcia capilar, não gastronômica. Rá.
Encontrei “Neutrox” no supermercado. No banho seguinte, usei. Na hora que passei no cabelo, voltei à adolescência, em Porto Alegre, no Menino Deus, no box do banheiro da casa da minha mãe, puro a vapor do banho quente, só uma fresta da janelinha basculante aberta pra gente não morrer de Junker…
Puf. Ir ao passado e voltar rapidinho – isso também sabe ser delicioso.

 

passatempo

Posso dizer que já passei tempo em um tempo em que
se arriscava mais em coisas reais
se viajava de carona
se ia na casa dos outros
transar de camisinha era raro
e era como chupar bala com papel
os sacos de supermercado eram de papel
sutiã era algo como… hein? ahn?!?
chuteiras eram pretas
o quadro negro não era branco, era verde
cinema era o francês
havaianas não era fashion, era chinelo mesmo
redatores publicitários eram meio que escritores frustrados
ou pelo menos poetas em potencial
diretores de arte eram artistas plásticos idem
comer doce era normal
calça jeans boa era aquela mais velhinha
só existia modess e sempre livre
ouvir mpb era tão cult quanto curtir rock inglês
comia-se bolinho de chuva
ter pais separados doía no coração
café e ovo ainda não faziam mal
tomava-se bolinha e fumava-se unzinho
na boa, sem ser drogado
os cabelos tinham personalidade, não era tudo louro e liso
tinha-se poucos amigos, muitos conhecidos
e nada de friends ou followers
na verdade, a gente até que via passarinho verde
mas não seguia passarinho azul
só existia o telefone fixo
e os discos eram de vinil
e saboreava-se mais as descobertas do sexo e do amor
as experiências eram mais pessoais
compartilhava-se menos, vivia-se mais
já faz algum tempo que este tempo passou
e por falar em tempos que mudam, que sejam os verbais
que seja o tempo em que você me amasse,
porque eu estou passada.