Ela

(que não sou eu)

Ela havia amanhecido

daquela mesma forma de sempre,

com o sono ainda por se satisfazer,

e ainda distante disso,

ela ainda e sempre cansada,

pensando em desistir de algo,

para ver se tornava a jornada mais leve.

Ela havia aberto os olhos

durante o escuro da madrugada,

e resolveu pensar em suas amizades,

a grande circunferência de amigos,

conhecidos, familiares e colegas

uma caralhada de gente que a envolvia

de forma absurdamente distante.

Ela havia desenhado na mente

os desapegos possíveis,

mas agora que amanheceu cansada

já havia esquecido de todos.

Ela preferiu ficar sozinha,

e acreditou, ainda por algum instante,

que havia feito a melhor escolha.

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O mainstream e a ironia

O mainstream diz assim: não há poesia sem dor, não há melodia sem amor, essas coisas. A felicidade, que chato, é careta. Coitada.

Alguém feliz e saltitante não serve para escrever soneto. Tem que haver a tristeza, tem que ter a tristeza, se é que você me entende.

(Mas isso são coisas que eles dizem. Eu prefiro a ideia da alegria gerando momentos de sinergia, instantes de harmonia – infinitos, crescentes, constantes. Eu sou do tipo que só escreve poema se estiver melancólica… mas que segue acreditando sempre nas musas inspiradoras. Essas aí da foto são do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, numa montagenzinha que fiz.)

Pois é, tem esta “escola” que diz que a dor (principalmente a de corno) é a melhor inspiração que existe. Ô. Ainda mais na hora de compor um samba-canção. E que hora sagrada, essa, a hora de compor um samba-canção…

Então a felicidade de amor, quem diria, não consegue conviver com a poesia.

Cá entre nós, isso tudo é uma grande ironia.

Poema embriagado

Acusas-me, poema
de não te receber de bom grado.
Pois bem, que seja eu o acusado.
Chegas em horas péssimas,
chegas sempre em péssimo estado,
e queres o quê?
Queres coro, velas, perfumes?
Queres gritos exaltados?
Que diabo queres tu,
poema desfigurado?
Se chegas assim, embriagado,
cheirando a bar e a cigarro,
se chegas tirando um sarro,
tonto e querendo tudo?
Pois se é assim, te recebo mudo.
E pior, te escrevo calado.