Assim será

Me arriscarei a tentar. Um conto por semana. Em um ano, algo como 48 contos. Hoje é dia 11 de janeiro, então já estou em dívida de um conto escrito e acabado e outro a ter sido iniciado. O ano começou em uma quarta-feira, e hoje é domingo. Para mim, as semanas serão, então, contadas de quarta-feira em quarta-feira, até a derradeira de 2014. Assim. Então, na próxima quarta-feira, dia 15, deverei ter 2 contos inteiros, escritos e acabados. Assim haverá de ser.

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update em 7/2/14: tô devendo uma ruma de conto. to mais é lascada! :p

A tal da festa

A tal da festa estava marcada para começar às 8 horas. Mas já desde as 4 da tarde Maia andava em círculos pelo quarto sem saber que roupa vestir. Como iria, de carro? De táxi? Levaria o celular? Iria de cerveja ou partiria logo para o whisky, sem delongas? Maquiaria mais pesado a boca ou os olhos? Ou pesaria logo nos dois, no falar e no olhar, pegaria logo pesado, afinal fazia tanto tempo que ela não ia para uma balada, logo ela, logo ela.
Maia solteira, Maia sem hora para chegar, Maia sem medo de ser feliz, Maia querendo dançar e sacodir o corpo e não pensar em nada além da música e das luzes e dos corpos ao seu redor.
Bebe uma Coca Cola Zero com três cubos de gelo e acende um cigarro. O primeiro de uma longa série, pois Maia na farra fuma feito uma caipora, perde os limites na maior sem cerimônia, claro que depois a ressaca é grande, do tamanho dos arrependimentos todos, que se enfileiram. Mas Maia não dá muita atenção a eles. Um pouco, mas não muita. Continuar lendo

Gol contra

Com este conto eu fui selecionada para participar de uma Oficina de Contos na Flip, em 2007 (se não me engano), ministrada pela filha do Nélson Rodriques. Tentei uma “leve levada” nelsonrodrigueana, pra puxar o saco da professora, sabe? Bem, não creio que tenha tido sucesso. Mas que eu fui “estudar” na Flip, isso eu fui!

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Tavinho estava com tudo. Levou a maior grana naquela parada, dava para ficar numa boa o final de semana todo, e o melhor, havia comprado ingressos para a final do campeonato carioca. Que era no domingão. E era Flamengo e Vasco. E o Mengão lá, com tudo.
Bom demais. Finalzinho de tarde de sexta-feira, um calorzinho daqueles antigos, o boteco ali, convidativo, as mesinhas na calçada… e uma cerveja irremediavelmente gelada. Não deu outra. Tavinho atracou mesmo ali, tomou conta da mesa melhor situada – estrategicamente colocada, dava para ver a calçada e o balcão – sentindo-se o rei da cocada preta.
Para melhorar ainda mais, o garçom do boteco era faixa do Tavinho, desde o tempo do colégio. Baixou logo a mais gelada das loiras, estúpida, estupidamente gelada.
– E aí, a parada aquela rolou? Disse JB, o garçom.
– Rolou, rolou, mas eu não estou a fim de falar nisso. Prefiro me concentrar aqui nessa cerveja. Rola uma lingüicinha calabresa para tira-gosto? Pede pra Selma preparar uma no capricho?
– Peço já.
– E a tua cunhada? Já chegou de Ubatuba?
– Chegou. Fica o fim de semana, só. Ainda bem. A dona é bem boazuda e acaba ficando complicado lá em casa. Imagina, ela é a cara da Selma, mas é mais… mais… cara, a minha cunhada é gostosa para caralho!
– E cadê? Vai regular a mixaria? Coloca na roda, colega!
JB ficou meio contrariado, mas não deixou dar na vista. Abriu a cerveja, serviu só uns 3 dedos no copo e foi para a mesa ao lado. Passou um pano molhado na mesa, displicente. O gesto não chegou a surtir nenhum efeito higiênico. Voltou para o interior do bar e gritou lá para dentro:
– Selma, uma calabresa!
Não foi a Selma quem apareceu no balcão para entregar o prato fumegante de lingüiça calabresa acebolada. Foi Shirlei, a irmã mais nova. Recém chegada de Ubatuba.
Lá de fora Tavinho viu a morena chegando no balcão, viu nos olhos dela um mel que ainda não havia visto em nenhum outro olhar. E um molejo no andar que mesmo ele estando lá longe deu para sentir a terra mudar o ritmo; o coração mudou o ritmo e um pedaço do tempo parou ali, no ar. Continuar lendo

A Rosa no Rosa

A sogra e os dois enteados da Rosa, um de 10 e outro de 13 anos, chegaram da Inglaterra. Ela morava junto com um inglês há pouco mais de um ano, o Ian, e ainda não conhecia o restante da família dele. Que consistia quase unicamente nesses dois enteados e na sogra, uma senhora ossuda e sardenta, de cabelo estranhamente armado.
Quando eles chegaram, a Rosa e o Ian já não andavam em uma fase muito boa. O inglês dela nunca havia chegado a ser essas coisas, e o português dele também não passava muito da terceira página. Assim a comunicação entre os dois tinha, na maioria das vezes, a profundidade de um pires e o alcance de um, digamos, celular da Oi na garagem do shopping. O sexo – que era o que realmente os unia – já estava dando ares de cansaço, ele andara se encantando com uma atriz de cabelos incrivelmente vermelhos, moça interessantíssima recém chegada a Porto Alegre, que já chegou dando a maior bola para o Ian, que era diretor de teatro e era alto, meio coroa e muito bonitão. Rosa era uma figura interessante, mas não segurava todas as petecas do mundo. Além do mais, ela era bem mais nova do que ele, seus vinte e poucos anos ainda não haviam ensinado nada que prestasse. E ela também andava um pouco em busca de alguma pitada de romantismo em qualquer lugar que fosse. Continuar lendo