Nem tudo reluz

O que se pode fazer ou desfazer,

se o tempo parece estar

zombando, quando passa assim

depressa, desse jeito quase voando,

trazendo mais meios tons e dúvidas

de auroras do que maturidade?

E o que se pode pensar

ao se sentir sem convite

para as multicores revistas,

ao se chegar tarde nos guichês

de passagens, ao perder de vista

as portas e janelas, os portões

amarelos-ouro, aqueles, sempre

fechados em tom de desencontro?

O que se pode fazer se não

buscar-se logo a cor da lágrima,

e fingir-se que se lava a alma,

e correr no quase desespero

demonstrando um verde-claro estado

– tão falso quanto escuro musgo! –

de tepidez e de calma?

O que se pode jogar, quando

se passa a desconhecer o verde pano

de feltro, as cores das novas cartas,

os novos ases de copas, os amarelos-ouro

das portas, o azul distante e discreto

do novo a que não pertencemos?

O que será que devemos?
(agosto/1999) 

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a gente: douglas e eu

 

conheci o douglas na época do pré-vestibular, eu acho. a gente frequentava as mesmas festinhas e tal. ele é um cara engraçado, e faz amizade rápido, a gente logo percebe a gaiatice dele e se diverte com isso.

tem muita gente que implica com o douglas, tem uns que acham ele chato, preguiçoso. tem uns que falam que ele é má companhia. mas são uns caretas, isso sim. eu acho que o douglas tem um charme bacana, bem underground, mas nem por isso precisaria ser patrulhado por esta gente quadrada.

a gente, douglas e eu, nós fomos ficando muito chegados. tipo o pensamento de um ser o pensamento do outro, sabe? a gente se entendia de um jeito muito louco, nem precisava falar e ao mesmo tempo a gente ficava tão eloquente, entende? acho que a gente meio que se amava mesmo.

quando eu conto tem gente que não acredita, mas na época do vestibular, eu ia para o lado das exatas, e o douglas para o lado das humanas. mesmo assim ele me acompanhava até onde era minha prova, e depois ia calmamente para o local da prova dele. ambos passamos fácil no vestibular. eu para engenharia química e matemática, ele para artes dramáticas e literatura.

a gente, douglas e eu, fomos nos apaixonando. e quando a gente transava, era como se virássemos puro elemento, fogo e ar, terra e água, sei lá. era uma coisa muito completa, éramos dois bichos e ao mesmo tempo duas crianças. descobrimos áreas em nossos corpos e em nossas mentes, áreas nunca antes navegadas. ficamos como que dependentes um do outro, douglas e eu.

o tempo passou, e nisso ninguém consegue interferir, o tempo passa mesmo, e minha relação com o douglas também foi mudando. o fato é que não conseguíamos ficar muito tempo um longe do outro, porque nem um nem outro queria isto de fato. morávamos juntos em uns períodos, morávamos separados em outros. construímos juntos uma relação de amizade e amor, de respeito mútuo, cada um percebendo a importância do espaço do outro. crê?

o douglas apronta, sabia? às vezes some, ninguém tem notícia, desaparece. ele é festeiro, adora a boemia, fica na farra até tarde, bebe todas, fuma que é um caipora. aí depois de um tempo reaparece, na maior cara de pau, rindo à toa. mas eu o perdoo sempre, sabia? a gente, douglas e eu, somos mesmo uns enrolados.

 

dramaturgando

eu sei começar a escrever uma peça.

a gente comeca com uma frase,

depois parte pra um argumento,

depois se quiser (pra facilitar) faz uma escaleta,

como para um roteiro de cinema.

pode também partir de um conto,

mas atente sempre para o conflito.

é mais ou menos aí que eu paraliso,

é na hora do vamos ver que eu entro em crise.

então, assim, era como eu dizia:

eu sei começar a escrever uma peça.

mas seguir adiante e terminá-la

aí, meu filho, já são outros trocentos.

criança interior

li há pouco um post no facebook sobre a “criança interior”. lembrei um pouquinho de um monte de coisas que o meu terapeuta me disse sobre isso. resumindo, o texto que se segue é ao mesmo tempo uma autoanálise, uma provocação e uma tarefa de casa. tipo 3 em 1 mesmo.

minha criança interior começou a ter problemas já dentro da barriga da mãe exterior. naquela barriga havia muito mais medos, culpas e tristezas do que nutrientes. o romper da concepção já seria o primeiro momento de ruptura da zona de conforto da minha criança interior. a bichinha.

o segundo momento de ruptura eu acho que pode ter sido a chegada da irmã mais nova. com a chegada daquela bebê lindamente loura e vivaz a minha criança interior, que era meiga e doce, beirando a insossa, deixou de ser o bibelô da casa para virar “saco de pancada” dos meninos (claro que entre aspas, eles não batiam nela). mas devo dizer que um deles, em especial, a fazia se mijar diante de todos com o “ataque de cosquinha” ou quase morrer asfixiada nas brincadeiras de “ficar roxinha”. tudo muito meigo.

no terceiro momento a minha criança interior já é adolescente, mas como ela sempre foi meio retardada no cronograma de faixa etária, aos 15 anos era uma meninona mesmo. uma criança. e uma ruptura muito foda se deu aí, quando seu pai exterior separou-se de sua mãe exterior, e quebrou em mil pedacinhos um mundo exterior – que se juntou aos caquinhos do seu/meu delicado mundo interior, também quebrado. lembro aqui quando o pai pediu pra minha criança interior o ajudar a fazer sua mala, essa cena me comove porque me lembro dela por trás de uma névoa de lágrimas, foi assim que eu a vi. dobrando as camisas e as acomodando na mala, mas sem enxergar direito, pois havia uma lâmina intermitente de lágrimas que escorriam pelos meu olhos. assim vejo a cena até hoje em minhas lembranças, como se fosse um filtro do instagram, uma cortina de lágrimas vertidas pela minha criança interior, a princesinha que não queria ver o seu príncipe, o seu pai, o amor da sua vida, partindo assim da sua casa.

tem mais, tem outros, aliás, tem uma ruma. mas resolvi que vou usar estes específicos três momentos de ruptura do crescimento em conforto da minha criança interior e vou tentar fazer uma coisa que eu já devia ter feito há muito tempo. além de entregar para o meu terapeuta ler, em paralelo, vou aplicar a técnica EFT, ou tapping, junto à alguma meditação e ho’hoponopono, focada nestes momentos, e tentar purificar essa porra toda, tipo dar uma lavada na alma. dar um “pedala” nesta criança interior chatinha mimimi. porque né?

 

dozamores

existem amores que rompem barreiras

que fazem poemas

e que compram flores

amores macios como borboletas

amores que irrompem aos borbotões

 

existem amores que chegam quietinhos

que ficam brechando

e se esgueiram de leve

amores estranhos desses que merecem

um lado estranho da nossa atenção

 

existem amores que vão desmaiando

perdendo a força

ficando invisíveis

amores sensíveis que findam o ciclo

seguindo o caminho, andando,

enfim

 

 

 

 

sem título

impressionante o quanto eu deixo saporra desse blog às moscas. principalmente agora, que estamos vivendo uma verdadeira revolução no foicebook, onde brigamos a paus e pedras com inimigos virtuais vorazes e furiosos. é golpe, não é golpe. é estupro, não é estupro. é a língua portuguesa, não é, é algo meio similar, acho que… enfim.

acaba que eu abandono mesmo o tranquilo lago do meu blog divagarim e me jogo no meio do torvelinho de memes e frases feitas e repetições e links e fotos do temer assim, do temer assado, da mulher dele, do filho dele. as gravações! áudios e mais áudios, vídeos, links do youtube, mais frases feitas, citações, brigas, bate-bocas!

já vi todo modelo de marmota. já vi desenhista de estúdio gringo famoso ser despedido por que defendeu o político mais meleca do mundo – o que deixa a coisa toda bem picante e divertida – pelo menos. já vi o suplicy sendo fofo de várias formas diferentes. já vi o prefeito gato de são paulo passar um trote mega massa troll-tranquilão no cabra da rádia, aquele bem babaca (e essa foi a marmota das mais fodas, eu achei!). já vi (na verdade não vi, porque eu seleciono onde coloco a ponta dos meus dedos, caralho, e tem cliques que eu absolutamente não faço, e isso é inegociável) filme auto-encriminante de estupro coletivo! como diz uma amiga: “tu crê?”.

já vi de um tudo nessa interneta do capeta, meu filho. e vou te dizer uma coisa. blog já foi. é coisa do passado. blog é pra amadores, crianças, perdedores (brinks, eu adoro blog, mas a festa tá na janela ao lado, bebê, você vai ter que se convencer disso). e digo mais: na verdade blog é pra jornalista sério, ou pior, intelectuais! é pra gente que tem muita coisa pra dizer, é outro papo. o fato, meu amor, é que O MOMENTO NÃO TÁ PRA BLOG! o mar não tá pra peixe. essa porra toda tá fervendo, tá todo mundo doido, cada um em sua bolha de seus feeds no face, o samba tá sambando é NO FACEBOOK, é lá que a porra tá rolando, lá e nos tweets da galera cool, mas muito mais lá no feed do facebook, selecionado a bel prazer dos algoritmos do zukcinha –  aquele doce de rapaz.

pra tu ter uma ideia eu já larguei e voltei desse facebook umas 3 vezes. saio e digo NUNCA MAIS EU VOLTO e dá uns 2 dias e lá tô eu, clicando no globinho azul. agora, aqui, no blog, eu passo meses longe, daí variadas vezes volto e penso assim: vou postar mais, fazer tipo um diário, exercitar a escrita, etc etc etc. TUDO BABOSEIRA. faço um postinho merda tipo mea culpa e largo de novo, às moscas, o pobre do blog, perdido no lamaçal de uns e zeros da webosfera ensandecida… pode apostar, é exatamente o que vou fazer assim que clicar em publicar, aqui. já já.

de sonho e utopia, de prosa e poesia

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Ouvindo uma entrevista com o Ricardo Darín onde ele me chega todo lindo, divagando, divagarim, me veio um insight – um desses fulminantes – que me alertou veementemente da necessidade de expor minhas poucas – parcas e lindas – ideias sobre a vida e a morte, a política, as amizades, os relacionamentos, a preguiça (meu pecado preferido), a inveja (o meu pior dentre os pecados) e todos os sentimentos decorrentes disso tudo. O sentimento de inadequação, minha tíbia posição diante do que me desacata, do que me fere, do que me coloca de lado. A urgência em me expressar parece ter tomado conta dos últimos momentos da entrevista que ouvia, tanto que não me recordo das últimas palavras dele – e que voz maravilhosa, e que linda a língua castellana, sei lá se é isso, o espanhol, a porteñice, que delícia ouvir o som das palavras de Darín. A maturidade da voz dele, das ideias dele, das colocações dele. A maturidade é um dos meus temas recorrentes, um assunto tão próximo a mim e do qual tento sempre fugir, através de tentativas constantes e estúpidas de juventude, tentativas cheia dos erros de juventude, de excessos, de falta de limites. Uma busca de algo impossível, que me remete às utopias de Galeano, à solidão do próprio e já mencionado Darín. Enfim. Decidi que irei ler mais e escrever mais, e registrar sentimentos e sonhos em palavras, do jeito que for; que retomarei os roteiros iniciados; e iniciarei novos; e escreverei mais e mais. Enfim. Fica aqui o registro de um compromisso. Um compromisso de arte, de sonho e de utopia. Seja em leituras, envolvimentos, viagens, devaneios, divagações, roteiros, prosa ou poesia.