Ela

(que não sou eu)

Ela havia amanhecido

daquela mesma forma de sempre,

com o sono ainda por se satisfazer,

e ainda distante disso,

ela ainda e sempre cansada,

pensando em desistir de algo,

para ver se tornava a jornada mais leve.

Ela havia aberto os olhos

durante o escuro da madrugada,

e resolveu pensar em suas amizades,

a grande circunferência de amigos,

conhecidos, familiares e colegas

uma caralhada de gente que a envolvia

de forma absurdamente distante.

Ela havia desenhado na mente

os desapegos possíveis,

mas agora que amanheceu cansada

já havia esquecido de todos.

Ela preferiu ficar sozinha,

e acreditou, ainda por algum instante,

que havia feito a melhor escolha.

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superfícies

ultimamente ando reparando
em minhas superfícies.
manchas roxas me aparecem,
assim, do nada,
nas pernas, nos flancos, nos quadris.
da noite para o dia elas aparecem.
minha pele, antes branca apenas
hoje em dia tem tons de roxo
e também é toda salpicada,
sapecada de muito sol errado,
já com manchas senis e rugas,
pelo fato de eu ser desleixada
– detesto cremes e derivados.
sempre tive muitas pintas,
tive sempre algumas sardas,
nos verões ficava cor-de-rosa
ou vermelha, um pimentão.
com sorte depois não descascava.
ando reparando agora que prefiro
aquietar-me à sombra
e dentre tantas cores e padrões,
entre um calorão e outro,
talvez resolva aprofundar um pouco
– tentar talvez amadurecer de vez –
e parar de olhar apenas
para as minhas superfícies.
e as dos outros.

papo com a zamiga

então. é como eu digo: uma crise pode ser sempre uma escadaria a subir. às vezes os degraus são íngrimes, mas na maioria das vezes eles pode ser bem interessantes, bonitos, bons de utilizar. depende do jeito de como a gente encara a bronca. quer dizer, encara a crise. digo isso porque já passei por algumas (acho que todas) das mais corriqueiras crises que o ser humano-muié da minha faixa de idade já passou. algumas delas eram degraus íngremes, ásperos, duros de escalar. outras foram suaves, com degraus reconfortantes, apreciáveis. as mudanças, hormonais ou não, sociais ou não, espirituais ou não, as crises dos 15, 18, 21, 30, 40 e dos 50, o medo de mudar, as constantes transformações. todas elas variaram, mas como toda boa escadaria, todas me levaram para cima – mesmo porque era esta a única opção a seguir. falando sobre isso, filosofando sobre as crises e as amizades e essa coisarada toda que é o “serumano”, cada vez mais eu acredito: o único sentido da vida é para riba.

escadaria-sicilia

talvez sem pausas

talvez eu precise escrever alguma poesia para desintoxicar dos medos e dos sustos e das desesperanças que apesar de todo meu empenho em afastá-los insistem em bater na porta da minha mente insuflando as falhas que eu havia tentado murchar

talvez eu precise parar de olhar tão para dentro de mim mesma ou muito ao contrario talvez eu precise realmente parar e olhar para dentro de mim mesma

talvez o melhor seja mesmo lembrar da minha grande e absoluta e indiscutível responsabilidade sobre tudo o que acontece dentro e fora de mim e ao meu redor e ao redor de tudo o mais e das pessoas e das coisas e das atitudes que tomam e que eu tomo às vezes sem pensar

talvez o fato de não pensar muito sobre as coisas não deva me isentar da enorme e irrefutável responsabilidade que eu tenho sobre todas elas pois como gota do grande oceano que sou e mesmo sem entender o tempo para pausas eu sei que faço parte disso tudo e todos nós fazemos

talvez eu precise mesmo escrever alguma poesia para desenformar as coisas todas e servi-las ainda quentes em uma mesa linda e bem posta e preparada para receber os amigos e os amores e as vantagens e as graças e os presentes dos deuses e também todos os desafetos e pequenos sustos que espreitam há tanto tempo sem que eu tenha coragem de deixá-los entrar

fé de festa

fé

a única coisa complicada em “não ter uma religião definida” (mas SER uma pessoa espiritualizada) foi a fase de explicar isso pra minha filha (quando ela tinha seus 3, 4 anos). ainda mais que na pré-escolinha dela (nada LAICA, óbvio, como todas no brasil) a bichinha era bem dizer “bombardeada” de informação católica.
maaaas…
agora que eu já expliquei e ela entendeu, minha fé (múltipla e libertária) é só festa e alegria.
eu adoro pinçar o que de bom existe em cada religião, e jogar fora (bem pra longe!) os dogmas estúpidos e os “cala-bocas” criados pra… pra calar a boca dos fiéis, né?
é muito bom saber diferenciar o que é da alma e o que é do bolso. é ótimo (eu diria que é DIVINO) não ter que prestar contas a ninguém – e nem pagar conta pra ninguém – pra crescer espiritualmente, rezar, fazer minha conexão com o universo…
sem dízimo, sem pecado, sem padre, sem culpa, sem paróquia, sem imagens.
só a alegria da fé.