ouriçada

Já estou quase terminando outro livro e ainda não havia postado nada aqui no Divagarim sobre o livro anterior, que tanto me comoveu, encheu o saco, gerou insights, ilustrou… enfim. Estou falando do “A elegância do ouriço”.

Comprei o livro pelo inusitado do nome, pela capa bonitinha, pela lida básica na orelha, pelo respeito à editora… comecei a ler sem grandes expectativas mas já de saída impliquei com o “afetamento desafetado” da personagem principal, assim como com a superioridade absurda de outra personagem adolescente, também principal… enfim. Acho que mais uma vez comecei a leitura de forma atravessada. E mais uma vez estava lendo um livro com narrativas paralelas. Isso tá me perseguindo!

Daí que, mais uma vez, dei tempo ao tempo e resolvi dar um novo olhar para o livro e suas personagens extremamente cultas e cheias de lustro. Me recolhi, assim dizendo, à minha ignorância e passei a absorver os ensinamentos culturais que o livros traz.

Ainda bem, porque, depois que passou da rebentação, eu simplesmente amei o banho de mar. Um livro lindo. Adorei.

Graças aos deuses chega em determinada altura o personagem japa, aquele que vem pincelar de sábia simplicidade (requintadíssima, aliás) esta trama empoeirada de referências e citações. Porque até o japonezinho do andar de cima chegar eu tava meio que cansando daquela concièrge enrustida e daquela guriazinha suicida. (Cansando no bom sentido, claro.)

Mas enfim. Não vou contar a história, não vou gerar spoiler (apesar de que estou meio engasgada com o final da história). Vou é registrar aqui algumas (das tantas) referências culturais que o livro traz.

Porque – gente de deus! – é um monte de coisa. A personagem principal, a Renee, é uma zeladora supermegamasterblaster culta e sofisticada que se faz passar por tosca pra poder ser culta em paz e curtir sua vidinha sossegada. O gato dela se chama Leon por causa do Tolstoi. (O anterior se chamava Dongo por causa de Fabrice Del e a gata anterior a ele era a Karenina, por causa… ah, vc sabe.)

Os gatinhos do sr. Ozu, o japa que vem morar no prédio, se chamam Kitty e Levin… sim, Ana Karenina de novo.

Umas amostras do “jorro” de referências culturais do livro, que me ouriçaram, olha só:

  • Marx: “Quem semeia desejo colhe opressão”
  • Mahler e sua Morte em Veneza
  • Haikai de Bashô: “Cabana de pescadores / Misturados com os camarões / Uns grilos!”
  • Guerra e Paz, como encenação de uma visão determinista da história (sempre, de novo, este me persegue)
  • Um tal de Edmund Husserl, filósofo fenomenologista, o qual não é possível abordar sem ter lido Descartes e Kant (ou seja, descartado por mim, pois I can’t entender estes caras… kkk)
  • O filme “A caçada ao outubro vermelho” é citado enfaticamente como um modelo perfeito para quem quer entender a arte da narrativa.
  • Kakuro Osakura, autor do “Livro do chá” – “quando se torna ritual, o chá constitui o cerne da aptidão para se ver a grandeza das pequenas coisas”.
  • “As irmãs Munakata”, de Ozu.
  • “Tokyo-Ga” de Wim Wenders, um extraordinário doc dedicado a Ozu. “… descobri Ozu e pela primeira vez na vida a arte cinematográfica me fez rir e chorar como um verdadeiro divertimento.”
  • Os hokkus da Antologia Japonesa Clássica, poemas de Kokinshu
  • Riabinim, Levin e Oblonski, de “Ana Karenina” – todo um trecho sobre a negociação de um bosque. A personagem Renee é obcecada por Ana Karenina. (Fiquei tão mexida que quase compro uma ediçãozona do livro na Livraria Cultura, mas era caríssimo e grossérrimo, eu ia acabar não lendo, certeza. Mas um dia eu leio. Preciso, pelo ouriço. Tô dizendo: o ouriço me ouriçou.)

A personagem adolescente (Paloma) é quem diz: “A Sra. Michel tem a elegância do ouriço: por fora é crivada de espinhos, uma fortaleza, mas tenho a intuição de que dentro é tão simplesmente requintada quanto os ouriços, que são uns bichinhos falsamente indolentes, ferozmente solitários e terrivelmente elegantes.”

Foi aí ela me ganhou, essa adôle chatinha. Hehehe.

Ploft!

Faz um bom tempo (um tempo bem grande, aliás) li o Uma longa queda, do Nick Hornby, e nunquinha que falei dele aqui. Pois agora eu vou falar. Ainda tenho ele na memória, acho.

O lance do livro é assim: quatro figuras tri diferentes entre si resolvem se suicidar na noite de reveillon e sobem no terraço do prédio, digamos, mais suicidável de Londres.

Ali em cima eles percebem que têm vontade de se matar mas não têm coragem. E começa um relacionamento tragicômico entre eles, cheio de idas e vindas, descobertas, micos, desassossegos – nada fica na zona de conforto. Aliás, não rola uma zona de conforto nesse livro, apesar de ser bem gostoso de ler.

É divertido, pra quem curte o humor inglês. Eu curto. Eu me diverti. Eu gosto de ironia. (Se não gostasse estaria frita, afinal estou casada há quase 20 anos com o Chico, hehehe…)

Gostei muito desse lance de ser narrado em primeira pessoa pelos quatro personagens, que se alternam na narrativa de uma forma bem legal. Engraçado é que eu tinha acabado de ler o Pequena Abelha, onde duas personagens também tri diferentes entre si alternam a narrativa em primeira pessoa. Fiz até este post aqui sobre o livro, espia. Então, eu estou gostando MUITO dessa forma de narrativa, e agora estou torcendo que isto seja uma espécie de AVISO dos céus de que vai ser desse jeito que vou escrever meu romance que será um sucesso retumbante e… viajei.

Voltando. Bom, eu recomendo a leitura, porque eu curti. Curti pra caralho. Ops, foi mal, Maureen.

Zumbido de Carnaval

Acabei de ler, no feriado de Carnaval, o livro Pequena Abelha, de Chris Cleave. Este aí da fota.

Caraca. É uma história arrebatadora, assustadora – porém é escrita com tanta maestria que a gente é levado até suas entrelinhas como que carregados por uma onda que deságua na costa nigeriana. É foda. Genial. Confesso que fiquei com medo de algumas passagens, por serem muito cruéis, muito cruas, viscerais, doentes. A raça humana pode ser algo absurdo. Mas superei-as corajosamente, não fiz como faço em alguns filmes: afinal, não dá pra ler com as mãos tapando a visão nas partes mais fortes da história.

Continuar lendo

Por que eu gosto de ler livros?

Gosto de ler livros porque eles me provocam, a culpa não é minha, é deles. – Brincadeirinha.

Gosto de ler livros porque ainda não consegui escrevê-los. – Mentira deslavada.

Gosto de ler livros porque adoro assistir a engodos, pretensas verdades, viagens internas, egoísmos desenfreados e a maioria das confissões. – Verdade.

Continuar lendo

Um livro no escuro


O livro seguinte foi a retomada de uma leitura largada no caminho. “Homem no Escuro”, do meu mui amado Paul Auster.

Comecei a ler em julho de 2010, na viagem pela Europa. Não “casou” bem. Não era hora nem lugar. Travava demais, empacava numas páginas e não conseguia sair do canto. Amo a narrativa desse autor, o jeitão dele, mas não comprei a história do mundo paralelo, então ficou difícil. Tanto que coloquei o livro no freezer por quase 6 meses, pegando de vez em quando, olhando pra ele com um jeito escusado, enviezado, envergonhado, e recolocando-o na prateleira.

Continuar lendo