Antes ele do que eu

Tiraram o pólipo, que era mais tenebroso que um simples pólipo, era um tumor neuroendócrino, o safado. E foi enviado para análise, para ver se esse jeitão carcinóide dele é do bem ou do mal.
A doutora endocrinologista, ao ver o laudo do exame de colonoscopia (aquele, ao qual eu obviamente sobrevivi) e o da citopatologia, me deixou um tanto quanto apavorada.
Ela começou fazendo um silêncio grave seguido de um olhar significativo.
Na hora eu não pesquei.
Daí ela emendou dizendo que eu devia ser forte, o que é o mesmo que dizer “você está fudida”.
Daí falou que eu precisava cuidar da minha imunidade, curar uns quadros infecciosos que me atormentam há décadas, enfim, me fortalecer fisicamente (ou seja, “você está mesmo muito, muito fudida, colega”) e uma série de outras coisas, as quais vou listar aqui:
1) largar o excesso de trabalho, liberar-me ao máximo do stress;
2) fazer exercícios, o pilates e um que seja aeróbico;
3) fazer hatha yoga, meditar, me centrar, me focar em mim;
4) fazer terapia, buscar apoio psicológico profissional;
5) conversar com meus familiares, acionar os amigos, não enfrentar sozinha;
6) conseguir uma consulta urgente urgentissima com o médico que fez a colonoscopia, nem que fosse preciso fazer plantão em frente à porta do seu consultório, para ele encaminhar os outros testes e tomar as futuras providências, visto que ela iria viajar dali a dois dias.
Claro que eu saí desta consulta me tremendo toda, da cabeça aos pés. No carro, chorei a caminho do outro médico. Estacionei, me recompus, enxuguei as lágrimas, lembrei-me de tudo o que havia lido e visto sobre a importância de manter a calma e o autocontrole e liguei pro meu marido aos berros: “eu estou com câââânceeeeeer!!!”
Devidamente acalmada pelo próprio marido, fui para casa e telefonei para o consultório do médico que eu devia ir com a máxima urgência. O diálogo com a atendente dele, curto e grosso, foi mais ou menos assim:
– Preciso de uma consulta urgentíssima.
– Qual o seu convênio?
– É Unimed.
– Tenho para o dia… hummm… 22 de dezembro
Lembrando que estávamos em outubro, perguntei em cima do laço:
– E se for particular?
– Amanhã às 14 horas, pode ser?
Chegou o tal amanhã. Chegando ao médico, ele me tranquilizou, dizendo que o diabo não era, necessariamente, tão feio quanto a doutora o havia pintado – com todos os tons de um Pedro de Lara. Ele disse que poderia até não ser nada de grave, que poderia ser tipo um diabo, digamos assim, a la Gianechinni. Tudo dependeria do resultado de mais dois exames: um histo-não-sei-o-quê e um ultrassom transretal.
(Ahn? Transretal quereria, por acaso, dizer exatamente o que eu imaginei?) Ai, meu Deus, lá vamos nós, eu e meu cu, novamente.
E como o assunto é sério, o próprio doutor ligou para algum colega que faz este procedimento e marcou meu empalamento, quer dizer, meu ultrassom, para o dia seguinte. Assim que ele largou o telefone e me confirmou o exame, senti o cu apertar. Literalmente.
Senhor!
Poucas coisas podem ser tão constrangedoras quanto um ultrassom transretal. A colonoscopia perto dele vira pinto. E olha que estou abominando todas estas metáforas fálicas, veja bem!
Algumas horas antes do exame, a gente enfia – não há como ser elegante agora – rabo a dentro um liquido com ação laxante avassaladora. E corre para o troninho. Fica lá, fica lá… Daí, Quando não se tem mais nada a declarar, é sinal que ok, estamos prontas para o abate.
Chegando lá, a assistente, muito solícita, pede que eu me deite de lado e “empine o bumbum”. Se eu não estivesse tão assustada e constrangida eu pediria para ela botar um funk e me chamar de cachorra. Para arrematar o momento de puro êxtase, a assistente abre, diante dos meu olhos, uma embalagem diferente de preservativo, coloca a camisinha (que na verdade é um camisoláo) em uma trosoba imensa e me mostra, sorrindo sarcástica.
– A senhora por favor se achegue com o bumbum um pouquinho mais para cá. Isso, assim, obrigada. Agora é só esperar.
Pronta, devidamente alocada, empinada e com o rabicó ao léu, cada minuto parecia meia hora. E eis que chega a doutora. Que bom! É uma mulher! Isso me deixa mais à vontade, não me pergunte por quê, mas é fato que naquele momento achei preferível ser estuprada por uma doce alma feminina.
A doutora fala docemente, apesar de muito direta e prática, sem rodeios. Isso me acalma. Ela explica que não vai doer, que eu sentirei apenas um desconforto. Arran, senta, Cláudia!
Mas tudo bem, eu vou ficando mais tranquila, afinal não há nada que eu possa fazer, o jeito é relaxar e deixar o lance rolar, entende? Óooommmmm!…
Mas aí acontece: abre-se a porta e por ela entra (e a cena se dá em slow motion) o assistente da doutora! Um rapagão de cabelos pretos e jaleco branco; um cara, um homem, um ser humano do sexo masculino, testosteronado, como tantos outros destes que a gente encontra na rua, na livraria, no supermercado, no posto de gasolina. Puta merda, ele se senta diante do equipamento, justamente diante daquela tevezinha que mostra nossa beleza interior, e isto significa que ele fica sentado exatamente na altura do meu traseiro exposto.
Se sentir vergonha fosse um negócio palpável eu estava ali segurando um punhado de pregos em cada mão.
A doutora enfiou o troço – devidamente besuntado, admito – e prescrutou-me o cu atrás de algum resquício de pólipo, ou seja lá o que ela estivesse procurando.
Tudo o que eu queria era que aquele exame acabasse logo.
Tudo o que eu não queria era encontrar com aquele doutor assistente em qualquer lugar do mundo, ou ouvir a voz dele. Nem no twitter eu queria ter proximidade com esse rapaz que testemunhou meu estupro.
Chegando em casa, meu primeiro impulso foi tomar um banho e tentar relaxar. Como um draminha tem seu valor, fiquei doida para fazer a famosa cena pós estupro dos filmes: chorar sob o chuveiro, encostar-me nos azulejos, ir me abaixando lentamente, com olhar perdido, as lágrimas a se confundirem com a água do chuveiro.
Mas a doutora havia falado que assim, à primeira vista, estava tudo bem com meu reto, que eu não precisava me preocupar, então eu não tinha motivos para a cena dramática.
Parece que a mim foram reservadas apenas as cenas patéticas.

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8 pensamentos sobre “Antes ele do que eu

    • Nossa, eu acabei de postar e você comentou, Ana, que show! Eu ainda ia arranjar uma imagem, escrever uma introduçãozinha… Foi meu record de comments de todos os tempos! Estou feliz, acho que até meu cu ficou feliz com esta! Hahaha! Obrigada, viu? E vamor seguir assim, rindo da vida, que é mesmo o melhor a fazer!

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  1. Pingback: Tweets that mention Antes ele do que eu « DIVAGARIM -- Topsy.com

  2. muito bom. o bom humor é um santo remédio. vou enviar pra uma amiga que passou pela mesma situação. parabéns pelo texto e pela maneira leve de enfrentar essa situação complicada para muitos.

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