Gol contra

Com este conto eu fui selecionada para participar de uma Oficina de Contos na Flip, em 2007 (se não me engano), ministrada pela filha do Nélson Rodriques. Tentei uma “leve levada” nelsonrodrigueana, pra puxar o saco da professora, sabe? Bem, não creio que tenha tido sucesso. Mas que eu fui “estudar” na Flip, isso eu fui!

. . . o O o . . .

Tavinho estava com tudo. Levou a maior grana naquela parada, dava para ficar numa boa o final de semana todo, e o melhor, havia comprado ingressos para a final do campeonato carioca. Que era no domingão. E era Flamengo e Vasco. E o Mengão lá, com tudo.
Bom demais. Finalzinho de tarde de sexta-feira, um calorzinho daqueles antigos, o boteco ali, convidativo, as mesinhas na calçada… e uma cerveja irremediavelmente gelada. Não deu outra. Tavinho atracou mesmo ali, tomou conta da mesa melhor situada – estrategicamente colocada, dava para ver a calçada e o balcão – sentindo-se o rei da cocada preta.
Para melhorar ainda mais, o garçom do boteco era faixa do Tavinho, desde o tempo do colégio. Baixou logo a mais gelada das loiras, estúpida, estupidamente gelada.
– E aí, a parada aquela rolou? Disse JB, o garçom.
– Rolou, rolou, mas eu não estou a fim de falar nisso. Prefiro me concentrar aqui nessa cerveja. Rola uma lingüicinha calabresa para tira-gosto? Pede pra Selma preparar uma no capricho?
– Peço já.
– E a tua cunhada? Já chegou de Ubatuba?
– Chegou. Fica o fim de semana, só. Ainda bem. A dona é bem boazuda e acaba ficando complicado lá em casa. Imagina, ela é a cara da Selma, mas é mais… mais… cara, a minha cunhada é gostosa para caralho!
– E cadê? Vai regular a mixaria? Coloca na roda, colega!
JB ficou meio contrariado, mas não deixou dar na vista. Abriu a cerveja, serviu só uns 3 dedos no copo e foi para a mesa ao lado. Passou um pano molhado na mesa, displicente. O gesto não chegou a surtir nenhum efeito higiênico. Voltou para o interior do bar e gritou lá para dentro:
– Selma, uma calabresa!
Não foi a Selma quem apareceu no balcão para entregar o prato fumegante de lingüiça calabresa acebolada. Foi Shirlei, a irmã mais nova. Recém chegada de Ubatuba.
Lá de fora Tavinho viu a morena chegando no balcão, viu nos olhos dela um mel que ainda não havia visto em nenhum outro olhar. E um molejo no andar que mesmo ele estando lá longe deu para sentir a terra mudar o ritmo; o coração mudou o ritmo e um pedaço do tempo parou ali, no ar.
– JB! – gritou ele lá de fora, já se levantando, já entrando no bar e se aproximando do balcão – JB, não vai apresentar não? O que foi, é contratada nova? A Selma não vem mais não?
– Cadê a Selma? – disse JB, sem entender, para a cunhada.
– Está com enxaqueca. Eu vim para ajudar. Ficou no gosto?
– O quê? – disse Tavinho.
– O quê? – disse ao mesmo tempo o JB.
– A lingüiça. Ficou no gosto? Não sei como é a porção do bar, eu fiz do meu jeito.
Tavinho estava todo encostado no balcão, e poucos minutos depois a metade do seu corpo já estava praticamente sobre o balcão.
JB ficou um pouco cabreiro com o amigo. Era dele, a cunhada. E Tavinho vivia azarando Deus e o mundo, rabo de saia não tinha sossego por ali com aquele cara. Mas a cunhada era dele, a mulher que estava em casa com enxaqueca era dele, e ele não tinha a menor intenção de deixar o amigo azarar a dona, justo ali, debaixo do bigode dele.
Certo, JB não tinha bigode. Mas de qualquer jeito não ia deixar rolar pegação ali.
– Opa, opa. Olha que esse balcão tá meio solto ali, olha aí, olha aí, vamos evitar um acidente. – Ele falava isso enquanto ia empurrando o amigo, afastando ele da órbita da Shirlei, que era dessas donas que se fazem de sonsa. E que realmente fazem as coisas ao redor girarem.
Ela gostou do jeito do Tavinho olhar. E estava ali, toda receptiva, os olhos melados de mel, o ondular das ancas mesmo estando parada, para quase desespero do JB. Tavinho não entendeu nada do quase desespero do JB.
– Que é isso, Jota?
– Que é isso o caralho, Tavinho – disse JB, falando baixo o suficiente para a Sheila não ouvir, mas claro o suficiente para o Tavinho entender. – Eu que pergunto o que é isso que você está fazendo, amigo. Qual é? Vai jogar pedra nas minhas pombas, agora?
– Que pedra, mané? Que mané pomba?
– Mané você vai ver aqui nesse braço, viado.
E JB jogou-se sobre o ex-colega de escola, ali, no pé do balcão do boteco onde trabalhava. Shirlei não sabia o que fazer, e resolveu fazer justamente o que não devia. E saiu detrás do balcão, hipnotizante e ondulante, os olhos de mel lambuzados de preocupação.
– Pára, JB, deixa o cara em paz!
A aproximação suada da morenaça deixou os dois marmanjos paralisados, o gesto do soco parado no ar, a camisa amarrotada na mão, a respiração ofegante travada num soluço. Quando Tavinho percebeu que a situação toda se acalmou, num segundo e meio afastou o rosto do soco que estava para chegar. No meio segundo seguinte o soco veio, e veio com tudo. Tavinho escapou mesmo por um triz, foi por uma teta que não deu vaca; o soco foi parar na mesa e JB soltou um grito daqueles de encher o quarteirão todo de medo, susto e dó.
Tavinho saiu de perto, pegou no bolso o ingresso para a final no Maracanã e acenou com ele para o amigo, que se contorcia de dor, tentando mexer os dedos da mão direita.
– Jotabê, Jotabê. Calma aí, meu velho. Pega aí, cara. Vai no Maraca no meu lugar, faço questão.
JB alisava a mão dolorida. Resolveu amansar e falar com o amigo, mas sem levantar os olhos da mão e da mesa.
– Posso não, cara. O bar abre.
– Eu seguro pra você, prometo. Vai na boa!
Shirlei trouxe gelo para colocar na mão do cunhado. JB até começou a achar bacana ter dado aquela porrada na mesa. Maracanã, chamego, atenção. De repente até dava de novo, pensou.
Quando domingo chegou JB veio cedo para o boteco. No domingo era sempre ele quem abria o bar, o patrão passava por lá sempre perto do meio-dia, e o rapaz da caixa-registradora chegaria em seguida. Selma estava melhor, logo estaria ali pra tomar conta da cozinha.
A Shirlei tinha ido para a praia.
JB esperava, pensando em como dera sorte de ter visto de manhãzinha a cunhada saindo para a praia. O short justinho, a bolsa de palha. Então JB pensou que a vida era uma coisa bacana, e que seria muito bom ir mais tarde ao Maracanã assistir a uma bela partida de futebol. E o Vascão lá, com tudo.
Enquanto o JB arrumava as mesas do bar e a Selma colocava o avental, Tavinho e Shirlei tomavam banho de mar e trocavam amassos na praia. A entrada para o jogo ficou praticamente desmanchada, no bolso da bermuda do Tavinho, até terça-feira.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s