A Rosa no Rosa

A sogra e os dois enteados da Rosa, um de 10 e outro de 13 anos, chegaram da Inglaterra. Ela morava junto com um inglês há pouco mais de um ano, o Ian, e ainda não conhecia o restante da família dele. Que consistia quase unicamente nesses dois enteados e na sogra, uma senhora ossuda e sardenta, de cabelo estranhamente armado.
Quando eles chegaram, a Rosa e o Ian já não andavam em uma fase muito boa. O inglês dela nunca havia chegado a ser essas coisas, e o português dele também não passava muito da terceira página. Assim a comunicação entre os dois tinha, na maioria das vezes, a profundidade de um pires e o alcance de um, digamos, celular da Oi na garagem do shopping. O sexo – que era o que realmente os unia – já estava dando ares de cansaço, ele andara se encantando com uma atriz de cabelos incrivelmente vermelhos, moça interessantíssima recém chegada a Porto Alegre, que já chegou dando a maior bola para o Ian, que era diretor de teatro e era alto, meio coroa e muito bonitão. Rosa era uma figura interessante, mas não segurava todas as petecas do mundo. Além do mais, ela era bem mais nova do que ele, seus vinte e poucos anos ainda não haviam ensinado nada que prestasse. E ela também andava um pouco em busca de alguma pitada de romantismo em qualquer lugar que fosse.
Depois de quase duas semanas tendo de comer batatas fritas em praticamente todas as refeições e especialmente depois daquela noite em que acordou em meio a um pesadelo (um sonho cansativo e todo em inglês, com o sotaque carregado dos britânicos, que passou a ser a língua dominante no pequeno apartamento onde vivia), Rosa decidiu cair fora daquela Nova Inglaterra e subir para Santa Catarina o mais rápido possível. Então arrumou suas coisas e viajou naquele mesmo dia.
A primeira praia em que a gente chega quando está chegando em Santa Catarina, ou melhor, a primeira praia realmente bacana que se chega quando se está indo para Santa Catarina, é a Praia do Rosa. E foi bem ali que Rosa desceu do ônibus, junto com sua amiga taurina e peituda, na verdade uma moça que havia conhecido há poucas semanas, em uma festa da faculdade. Elas haviam combinado viajar juntas para rachar o aluguel de um quarto. E se encontraram na estação rodoviária. A peituda se chamava Rejane, uma garota bonitona e sempre bronzeada, que fazia body boarding e vivia por ali no Rosa – e também na Joaquina, na Ferrugem – azarando surfistas, turistas e ilhéus, a torto e a direito.
As duas amigas alugaram um quarto bacaninha em uma casa de pescador, entre uma fazenda e outra. Para ir até a praia, ou para curtir a lagoa salgada ou a lagoa doce, elas haviam de passar por estradinhas de terra, pequenos sítios, caminhos de carro de boi. Uma caminhada um pouco longa, mas muito gostosa.
Para duas garotas de vinte e poucos anos, a praia do Rosa pode realmente ser um lugar cheio de boas surpresas. A primeira chegada na praia foi já uma festa. Rapazes bonitos, interessantes, disponíveis, interessados. As duas se separaram e logo se enturmaram, cada uma na sua respectiva turma. A Rosa era do modelo “riponga”, seu papo era teatro, maconha e uma rodinha de violão. Já a Rejane era da “geração saúde”, saúde entre aspas mesmo, porque ela fumava todas e também valorizava o uísque e o pó branco. Ela era namorada – quase noiva, já – de um dono de academia, mas curtia uns surfistas. Pelo que a Rosa soube, o namorado da Rejane era todo importante e cheio da grana, tinha muito charme e um carrão, mas também tinha o pau pequeno; e a Rejane não gostava muito de ter tanto trabalho para gozar, apesar de adorar o status que o namorado lhe dava. Por isso vinha participar de torneios de body boarding em Santa Catarina sem o namorado, muito provavelmente bancada por ele, e aproveitava para traçar alguns rapazes pela praia. Ela não era o que se chamaria por aí de moça romântica ou sonhadora.
A Rosa só queria um sossego e alguma pitada de qualquer coisa parecida com romantismo. Nem que fosse uma solidão idílica, naquele quartinho alugado, naquela romântica casinha de pescador, com suas cortinas de chita e o teto baixo, sem forro. No fim das contas o quartinho com duas camas barulhentas ficou só com a Rosa, que com isso já viu suas finanças se abalarem um pouco mais do que o previsto, e logo já na chagada. É que a Rejane encontrou um antigo paquera e disse que passaria mais tarde pra pegar a mochila. Tudo bem, elas não tinham nada a ver uma com a outra mesmo.
Naquele mesmo primeiro dia a Rosa se queimou um pouco mais do que devia, afinal ela não tinha todas essas preocupações com protetor solar e o escambau… Tomava umas chuveiradas aqui e ali para refrescar o calor que o sol pregara em suas costas, tomava umas cervejas idem, afinal ninguém é de ferro, muito menos ela. Quando anoiteceu ela ficou por ali, vagando pela praia, pela noite, pelos barzinhos da costa, antes de decidir pegar o rumo das fazendas e da sua caminha com colchão cheirando a mofo.
Levou uma cantada de um inglês, o cara era até bem bonito, mas na mesma hora ela lançou pra ele um fuck you e saiu de perto, bem apressada, morta de medo que o nightmare sem legendas se repetisse. Depois veio um surfista, mas ele estava tão chapado que nem dava pra iniciar qualquer papo ou chamego. Daí quando o que parecia lhe restar era mesmo a romântica solidão, veio se chegando aquele ilhéu de trinta e poucos anos, um catarinense de fala apressada e cara de sem vergonha. Olhos esverdeados, como de um gato. O nome dele era Paulo. A conversa dele era gostosa, os “esses” chiados como de carioca, mas a fala apressada e cheia de jeitos de catarinense. Ele conhecia só tudo e todos dali do Rosa, falava das pessoas, dos pescadores, dos fazendeiros, dos turistas. Olhava a Rosa de cima até embaixo, com seus olhos gulosos e cor de erva-mate, e a conversa dele era gostosa.
Tomaram umas cervejas, ela e o Paulo. Ela pouco falava, só fazia fumar um cigarro atrás do outro e ouvir a conversa gostosa do Paulo. A noite ia caindo como em pingos grossos, o escuro se chegando, devagar e sempre. A brisa estava quente e, no caminho da casa, havia a lagoa doce. Chegando ali a Rosa e o Paulo se olharam, ele ficou bem quieto, ela tirou a blusa, eles entraram na água fria e doce da lagoa.
A Rosa olhou ao redor bem longe, o mais longe que uma pessoa pode olhar ao redor, para ter certeza da boniteza toda daquele lugar, iluminado por uma lua não muito cheia. Depois olhou bem perto, o mais perto que uma pessoa pode olhar dentro dos olhos verde-mato do Paulo. A Rosa lembrou naquela mesma hora do romantismo que viera buscar. E ali, flutuando e boiando nos braços e nos beijos do Paulo, sentindo o calor dos abraços dele em contraste com a frieza da água, sentindo a doçura dele em sintonia perfeita com a lagoa, esqueceu de tudo o que não importava. O que jamais tivera importância. A amiga peituda, o namorado dela, o Ian e seu acento britânico, a atriz de teatro recém chegada a Porto Alegre, o surfista chapado, a cortina de chita, a sogra de cabelo armado. E os dois enteados, um de 10 e outro de 13 anos, que estavam lá na casa dela, comendo batatas fritas.

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