O último dia de Clarisse

Foi decidido, de cima para baixo (ou não, tendo em vista o teor do assunto) que eu haveria de fazer uma colonoscopia. E pronto. Eu já havia fugido anteriormente deste exame, mas desta vez não foi possível. Quem sou eu para questionar o que a médica falou, depois de olhar meus exames, ouvir apavorada minhas façanhas (e não façanhas) e saber do histórico familiar? Quem sou eu, além da dona do furico a ser examinado, o rabicó em questão?

Ok, vamos então à colonoscopia, vamos encarar mais este desafio, de peito aberto. Ou de… Oh, não, oh, vou poupar a todos da imagem sórdida que acaba de me ocorrer.

A preparação para o exame já representa um sofrimento atroz. Ou, melhor dizendo… Meu deus, mais um trocadilho se configura, socorro! Preciso lutar bravamente contra eles, os infames!

O exame começa a perturbar no imaginário já antes mesmo de ser marcado na clínica. Pensar que teria que usar aquelas batinhas verdes horríveis, com abertura atrás, e com reais sentidos para a abertura ser atrás, já é, em si só, um grande sofrimento. Isso que eu nem sou muito estilosa, nem muito pudica. Mas enfim, a batinha é um desacato até mesmo para uma gogo girl em fim de carreira.

Deixar de comer coisas sólidas por um tempão, para a glutona que fos fala, é outro sofrimento que se materializa muito antes do exame. Sem falar na noite de rainha que se leva, a madrugada toda sentadinha no trono, vendo todo o reinado se esvaindo sem poder fazer nada para impedir.

Aí, no dia do exame, nada de alimentos sólidos. Nem sucos vermelhos. Eu, de minha parte, me entupi de suco de graviola e água de côco. Enjoei disso. Aliás, não me faz nada bem me lembrar disso. Pensando bem, acho que vou vomitar.

Ah, sim, por falar em vomitar, tem um negócio muito horrível que a gente tem que beber nessa manhã do exame. Uma coisa horrível, de sabor (sabor?) indescritível, que as atendentes sugerem que seja misturado com um suco de sua preferência. A gente bebe a coisa e se arrepia até o mais ínfimo pelinho do próprio cu. Ai, meus deuses, lá estou eu falando em cu, coisa que no momento eu queria evitar, por motivos absolutamente paradoxais.

Faltando exatas duas horas para o exame, nao se pode mais ingerir nada. Pê-ene. Nem água. Isso me deixou pirada. Só o fato de imaginar que não iria poder comer nem beber nada, nem mesmo dar um golinho de água, me deixou paranóica, certa de que sentiria uma sede saárica, certa de que pediria pra morrer, que acabaria estragando tudo e teria que remarcar o exame e começar este drama tudo de novo. Daí que nos últimos três minutos antes da fatídica hora de não poder mais ingerir nem ar rarefeito, eu emborquei uns dois copões de água, matando de antemão – abortando, por certo – qualquer possibilidade de sede vindoura.

Na verdade este gesto impensado só me rendeu uma vexatória e repetitiva vontade de urinar nas horas mais impróprias, vontade esta que chegava sempre acompanhada pelo temor de que o “um” viesse acompanhado do “dois”, em sua versão líquida e incontinente, provocada pela dose colossal de laxante ingerida na véspera.

Uma merda, enfim.

Mas nem, depois de um tempo não restava nada dentro do meu corpitcho que ainda quisesse ou pudesse sair pela porta dos fundos. Tudo terminado, ninguém em casa, game over, ces’t fini total.

Chegando à clínica, xixi feito logo na chegada, fui chamada para entrar. Que não levasse nada de valor. Acompanhada do maridão, deixei-o com meus pertences e me despedi com um olhar de “se eu demorar muito venha me resgatar”. Mas acho que ele não entendeu.

Depois de tirar toda a roupa e vestir a já citada batinha verde, com a abertura devidamente situada atrás, fui convidada a me deitar em uma maca, que ficava ao final de uma fila de quatro ou cinco macas, onde estavam deitados outros quatro ou cinco infelizes, de bunda de fora, como eu. Cada maca separadinha de outra por uma cortina.

Deitada, chega a moça para inserir o cateter e a bolsa de soro, para hidratar enquanto esperamos pelo procedimento. Não gosto quando chama de procedimento. Preferia quando chamavam de exame. Assim, procedimento, a coisa fica parecendo mais perigosa e muito, muito mais vexatória.

A moça pega a minha mão, diz para eu ficar quietinha e espeta uma agulha. Ao contrário de meus colegas e vizinhos de maca, dou um berro. Ai! A infeliz acertou um nervo, sei lá, qualquer coisa menos veia, porque levei um choque que me fez saltar! A moça se assusta, claro, porque eu gritei mesmo, mais pelo susto do que pela dor, e olhe que doeu mesmo. Tanto doeu que até hoje, nesse instante em que escrevo, quando já se passaram mais de duas semanas do procedimento, ainda sinto o choque na mão ao movimentar os dedos para digitar estas “memórias”.

Pois é, com o estado que anda a minha memória é bom mesmo que eu não deixe passar mais do que duas semanas para registrar os fatos, porque se não cai na vala do esquecimento e aí, kaputz, nunca mais.

Voltando, depois do choque e do grito, a mulherzinha ficou preocupada e repetiu várias vezes que não havia acontecido nada, que ela havia retirado a agulha, que eu me acalmasse, isso e aquilo, etc. E me perguntava se ainda doía e eu respondia que sim, ainda doía, e ela dizia que iria passar. “Vai passar, vai passar, a senhora se acalme”, dizia ela. E eu querendo que o tempo passasse logo, queria ir embora dali, daquela enfermeira e de suas barbeiragens com a agulha.

Em seguida ela optou pela minha generosa e supervisível veia do braço, a pele branca, fininha, descortinando um caudaloso rio de sangue azul, uma beleza, uma veia que realmente facilita a vida desse povo que lida com agulhas.

O soro começa a pingar. Eu logo pergunto se ali já tem o tão aguardado entorpecente que vai me fazer dormir. Não. Só soro mesmo. Só para hidratar e continuar a preparação para o procedimento. Ah! Mas quanta preparação, minhas senhoras, meu senhores. Que saco!

Aí, a gentil carniceira, digo, enfermeira, me deixa deitadinha, com os pés gelados, na maca estreita onde o soro pinga e o pinto pia. Tudo bem, acho que sou capaz de fechar os olhos e relaxar por alguns momentos, se não fosse a fome… Sinto uma fome, uma fome… Engraçado, a fome está tão grande que começo a ter alguma espécie de alucinação. Só pode, pois começo a sentir cheiro de salgadinhos. Sabe, salgadinhos de festa? Pois é.

Um cheiro lascado de salgadinho de festa e eu ali, deitada, com frio e com a bunda de fora. Certo, eu estava deitada, a bunda estava coberta pela bata, mas a sensação era mesmo de bunda de fora, e também tem o tal negócio, eu tenho que fazer um drama, entende?

Muito péssimo o pessoal da clínica fazer festinha quando a gente que está lá passa por estes momentos de privação de comida, bebida e da propria dignidade – lá vem eu, com meu dramas. Mas enfim, era como eu me sentia, privada da dignidade, a mão doendo do choque, os pés frios, fome (sede não tinha mais, o soro funciona), a bunda potencialmente de fora e, agora, só pra complicar um pouquinho mais, vontade de fazer xixi. (Não gosto da palavra mijar.)

Era culpa daqueles derradeiros e exagerados copos d’água. Malditos. E agora? Está quase chegando a hora do meu exame, o soro está pingango aqui e eu apertada para ir ao banheiro. Seria psicológico? Após prescrutar atentamente minha mente e bixiga, percebi que a vontade era real e chamei uma das mocinhas que passavam pra lá e pra cá, agitadas por conta da festinha, no corredor que ficava além das cortinas da minha maca.

Semi contrariada uma das moças parou e, diante do meu pedido semi-colegial “posso ir no banheiro, moça?” tirou o soro e ficou segurando o saquinho, enquanto entrei no pequeno banheiro e fiz um semi xixi. Muito complicado não poder dobrar o braço. Tinha uma agulhinha enfiada na minha veia, eu que não ia dobrar. Já pensou? Pois é.

De volta para a maca, a moça encaixa de novo o soro no tubinho da minha veia e sai apressada, afinal devia estar perdendo alguma coisa da festa, certo? Assim que ela sai eu vejo uma enorme bolha no tubinho que liga o soro à minha veia. Uma bolha que vem descendo e se aproximando, lentamente, da minha corrente sanguinea.

Eu logo penso que aquela bolha de ar, entrando em meu sistema venal, vai chegar ao coração e isso, com certeza, me causará uma morte súbita porém não indolor. Estava eu ali, olhando para a bolha que se aproximava, pensando que ia partir cedo, afinal, sem nem saber se tinha pólipos ou não no reto, sem terminar de criar a própria filha, sem se despedir direito do marido, que aguardava do lado de fora… sem terminar nenhum dos tantos livros começados, sem saber falar inglês com a mínima fluência, sem ter terminada quase nenhuma das inúmeras coisas que comecei e, pior, sem calcinha!

A bolha ia se aproximando e eu a olhava muda, enquanto todas as enfermeiras e atendentes estavam reunidas numa sala ali perto, de onde finalmente ouvi, entre sons “tssss” e “tssss” de refrigerantes sendo abertos, o motivo da festa, falado em alto e bom som por um médico recém chegado: ah, então é hoje o último dia da Clarisse?

Bom Deus, que dia a Clarisse escolheu para fazer sua festinha de despedida da clínica… Nesse exato instante a bolha entrou na minha veia e eu fechei os olhos. Ah, que morte ridícula teria sido, se assim o fosse.

Anúncios

Um pensamento sobre “O último dia de Clarisse

  1. Pingback: Antes ele do que eu « DIVAGARIM

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s